o livro que me levou para

O papel aceita tudo.

Comecei abrindo um olho de cada vez, primeiro o direito, porque ontem foi o oposto. São Paulo, 06 de dezembro de dois mil e dentro do vidro de cogumelos há um resto de água, mas isso não é importante para a história. Muito menos se esse for o último gole disponível em casa.  No banho pode-se bochechar.

Control C, Control Vejo-me na padaria em frente ao terceiro copo de café. A mão esquenta e o aspartame pega pesado nas amígdalas ou seriam nas papilas gustativas? Aspartame causa ansiedade. Língua nos dentes ásperos. Olhos nos relógios do celular, pulso e parede. Outro café, açúcar dessa vez. Ansiedade e mau humor repentino, like a bomb. Antes de dar o check out faço a média dos três horários diferentes. 2.57 minutos é o fuso horário médio da padaria, entre um pão de queijo, um obrigado e um volte sempre.

A vida passa num segundo.  Esse negócio de achar que vou morrer a qualquer momento é, definitivamente, algo que deixa minha mãe de cabelo em pé. Mas a minha vida está só começando a dobrar a esquina.

Arrasto-me para o metrô porque agora as calçadas deslizam. Chove. Navegar é preciso.

Na livraria acho tão bonita uma estante completamente habitada por livros com lambadas coloridas que me doem as vértebras quando puxo o próprio lóbulo para ver se estou sonhando. Percebo que caiu uma estante sobre de mim. Numa biografia é quase tudo sobre mim. Fiquei paraplégico, apesar de ainda não saber.

Acordo no hospital em sobressalto, com o cuidado de abrir o olho esquerdo antes do outro. Vejo enfermeira passar no corredor.  Devagar.  Ela tem muito orgulho dos seios, por onde anda, chega com os seios empinados, penso que essa seria uma boa frase para começar um conto, mas logo percebo que estou sem meu bloquinho de anotações. Tenho medo de esquecer, da frase, da enfermeira e dos seios, os dois; não tenho preferência política. Repito em voz alta para tê-la comigo, a frase: Ela tem muito orgulho dos seios, por onde anda, chega com os seios empinados.

O papel aceita tudo, mas escrever é o perigo que todos nós corremos. Os seios entram no quarto, depois ela. Gosto assim.

O que estou fazendo aqui?
Você sofreu um acidente.

Fecho os olhos para ver se estou tendo um pesadelo e revivo a cena em que uma estante cheia de livros cai sobre mim. De volta ao quarto e pergunto:
É verdade que estou paraplégico?
O doutor Martinez vai falar com você dentro de 20 minutos. Você está precisando de alguma coisa?
Onde estão as minhas coisas?
Na cadeira ao lado do leito, diz com a boca e com os olhos.

Minhas pernas não se movem. Devo estar… Ela percebe minha aflição e aproxima a cadeira de mim. Nessa luz eu posso jurar que já a vi. O quarto começa a girar. Deve ser efeito de alguma droga ou do livro de receitas de sobremesa. Tenho que maneirar no açúcar. Apago novamente e tudo o que escrevi até agora será perdido para sempre.

Ouço meu nome e abro o olho. Esse negócio de abrir e fechar os olhos o tempo todo é meio cansativo, mas lubrifica a Íris. A enfermeira me repreende por achar que eu estava fazendo um jogo de palavras com seu nome. Preciso parar de pensar em voz alta, digo essa frase em voz alta, dessa vez de propósito para tentar amenizar o contratempo.

Que horas são?
10:40.
Você arredondou para cima ou para baixo?
E faz diferença 2 minutos?
Quero saber se você é meio copo cheio, ou meio copo vazio.
Você acha que com suas frases de efeito, vai mesmo me conquistar?
OK, são 10:38, arrematou.

Doutor Martinez entra na sala.

Saíram os resultados dos exames. Você vai ficar bem, explica detalhadamente meu trauma com palavras de médico e metáforas para pessoas normais e ali percebo, médicos devem pertencer à classe profissional que mais faz uso de metáforas e comparações.

Por um milésimo de segundo fico triste por não ter problema algum, é maluco como gostamos de ser vítimas, para que sintam pena e cuidem da gente. Fica mais fácil, uma muleta para culpar o fracasso. Nossa mente tem esse poder de pensar em mais de uma coisa ao mesmo tempo, podemos até atravessar tristeza e alegria, genuinamente, juntas. Lembro do meu livro que estou escrevendo em segredo, deve ser o terceiro que começo em 10 meses. Percebo, finalmente, o tema do meu texto, depois de cento e trinta páginas escritas.

O papel aceita tudo, mas cobra depois.

É um alívio estar vivo e bem. Escrever é uma jornada sem mapas. Não há caminho errado para seguir, o segredo é seguir em frente.

Página 131

Após sofrer um acidente na livraria, Jonas ficou desacordado por alguns instantes longos demais em sua cabeça. Sua amiga, Íris estava apaixonada por seu melhor amigo, Martinez.

Ela havia marcado o encontro com ele naquela livraria para contar, justamente porque era o local da cidade em que ele se sentia menos intimidado, mas quando o viu sob uma estante de livros de auto-ajuda não teve coragem para dizê-lo. Ele já havia percebido, por isso, mesmo sem poder sentir as pernas, o desespero foi tomado por uma leveza. O tempo que ganharia para sentir pena de si mesmo agora seria eterno.

Foi levado para o hospital com um sorriso no rosto.

FIM

Você terá que passar por novos testes, nosso psicólogo, Doutor Amadeus, está de chegada. Mas antes, o ortopedista especialista em trauma quer ver as suas pernas.
Ele é bonito, faz piada fora de hora sem receber ibope.
Bom dia, sou o Doutor Chagas, ortopedista. Como o senhor está se sentindo?
Meio parado.

Doutor Amadeus entra nesse exato momento.

Você sempre faz piada de si mesmo quando não sabe o que falar? Ou sob grande stress?

Um médico barbudo com o nome de Chagas é no mínimo um oxímoro, mas esse ele resolve guardar para si.

Pensando bem, eu não gosto do final do meu livro, preciso reescrever.

Página 131

Jonas, ao tentar puxar um livro no topo da estante na ponta dos pés, músculos esquecidos fibrando todas as fibras que se podem fibrar. Olhou para o lado após ouvir um nome parecido com o seu, perdeu o equilíbrio e foi derrubado pela estante cheia de livros. Íris estava apaixonada por seu melhor amigo, Martinez e ele não gostava de saber disso.

Eu queria segurar a sua mão com a trilha do Podereso Chefão 2, Amarcord e quando tivesse para morrer, uma coisa mais bang-bang, pra Ennio Morriconi nenhum botar defeito.

Mas a gente sabe, que a morde nos pega de surpresa, a não ser naqueles meninos do filme um Peixe Grande que olharam dentro do olho da bruxa como iriam morrer.

Vou morrer aqui, sem Inês, e não terei feito nada de relevante na minha vida. Vivi com medo a vida toda, todos os dias o que é que eu fiz?

Cortei as sobremesas e o excesso de adjetivos eu fui deixando para trás. Me dá um doce deliciosamente salgado. Isso aqui parece um musical, todo o elenco se despedindo de mim, dançando ao som da banda, dando tchau. A câmera está presa à maca. Em meu nariz não há algodão, por isso sei que estou vivo e a sirene toca lá fora, ao fundo.

Ela havia marcado o encontro com ele naquela livraria para contar, justamente porque era o local da cidade em que ele se sentia menos intimidado, mas quando o viu sob uma estante de livros de auto-ajuda não teve coragem para dizê-lo. Ele já havia percebido, por isso, mesmo sem poder sentir as pernas, o desespero foi tomado por uma leveza. O tempo que ganharia para sentir pena de si mesmo agora seria eterno.

Foi levado para o hospital com um sorriso no rosto.

FIM

Piegas demais, ainda pior do que o outro, digo com a música na cabeça.
Você precisará fazer fisioterapia por dois meses.
No final ele tem que morrer, todo personagem tem que morrer, senão qual o sentido do texto?
Você percebe a gravidade do seu quadro?

Na verdade não é o fim que devo alterar, mas o começo.

calenza

(continue lendo a história)

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