Hoje é seu aniversário

O circo Garcia se instalou no aterro do Bacanga, esse lugar é o elo que São Luís conserva com as pequenas cidades do interior do nordeste, essas cidades que só tem uma praça, uma igreja, um coreto e uma vagabunda famosa. O vinculo é o fato de que toda cidadezinha tem um terreno baldio no qual não cresce mato e no qual aportam circos e parques de diversão e a capital do estado do Maranhão também tem um desses, é o tal do aterro.

Eu fui com meu bem ao tal circo num arrobo de inocência estúpida. Chegamos e fomos logo assediados pela horda de flanelinhas que domina a área, um bando de abelhas no mel. Descemos e fomos caminhando lado a lado, de mãos dadas a princípio, mas algum magnetismo nos uniu mais. Estranho andar com alguém ao lado e não tropeçar nas pernas dela ou perder o ritmo por conta da pessoa ter uma estatura diferente. É a única pessoa com quem consigo essa proeza, deve ser amor. Comprados os ingressos nos abancamos na arquibancada.

Ela saiu pra ir ao banheiro ou fumar um cigarro, não queria que ela fumasse, não por eu não fumar, mas porque é amor. Meu antebraço sustenta o peso do meu tronco a partir do queixo e apoiado com o cotovelo no joelho. Chego a brilhante conclusão que foi dinheiro jogado fora, afinal circo é uma das manifestações culturais mais clichês e sem cor dentre todas as artes, me pus a imaginar se alguém ainda fugia com o circo, cheguei à resolução que não.

O espetáculo acabou, mas ela ainda não voltou, será que foi buscar o cigarro na Souza Cruz? Saio e paro em frente a saída, me volto para a multidão que vaza da tenda, famílias, casais, duplas, trios, núcleos vindo feito água de torneira na minha direção. Contemplei aquilo como uma obra de arte, foi interessante, apesar dos esbarrões. Ela não apareceu.

Começo a ficar preocupado, em resumo eu comecei a ficar preocupado quando ela largou meu corpo e sentou-se ao meu lado na arquibancada. Que bom ter uma mente especulativa numa hora dessas, ela já morreu de 14 formas diferentes na minha cabeça, algumas envolve a atuação dos flanelinhas, outras envolve os leões desdentados, em outras ela foi atropelada por uma Honda CG 125 modelo 97. Ela sumiu mesmo. Não atendia ao telefone. Fiquei desolado, afinal, era amor. Mas não fui em busca do meu bem, fui para casa.

Só soube dela novamente quando apareceu na televisão dando entrevista pra um programa qualquer. Disse que tava morando no Rio há quatro meses, na casa dos avós, no bairro de Ipanema. Tava trabalhando como assistente de um mágico desses dekasseguis. Ela deu um sorriso, não lhe faço falta alguma. Acabou e eu estou aqui no terminal de integração olhando paro o aterro do Bacanga e me lembrando disso, nunca fui atrás dela, nem ela me deu explicações. Talvez não tenha acabado, mas parado.

texto enviado pelo leitor fernando

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